segunda-feira, maio 06, 2013

Teatralidades


Eu sou um rapazito que tem alguns problemas em sentar-se em certos e determinados sítios.

Não por nenhuma questão hemorroidal, mas pela simples razão de que tenho uma altura um pouco superior à média nacional. Felizmente as gerações mais novas têm surgido com estaturas cada vez mais elevadas, o que é bom em termos nacionais, para conseguirmos, gradualmente, ir eliminando aquela imagem que muitos estrangeiros ainda têm, do português baixinho, atarracado e de bigode. E infelizmente isto tanto servia para o português como para a portuguesa. Já não foi mau ver a Lúcia Moniz a entrar no “Love Actually” de buço depilado, apesar de fazer papel de uma pessoa inferior (empregada doméstica, e no mínimo não muito esperta). Melhor que essa, estão actualmente a Daniela Ruah e o Diogo Morgado. Embora esse ainda não resista a manter alguma capilaridade facial.

Adiante.

O certo é que, do alto dos meus 190cm, deparo-me com alguns problemas em sentar-me em locais apertados. Desde aviões a autocarros, passando pelos nossos teatros. Os cinemas mais recentes já seguem uma norma internacional, pelo que aí não tenho problemas, mas se vou a um teatro nacional, vejo-me à nora para arranjar posição. No Rivoli, quase sinto necessidade de comprar 2 lugares.

Na semana passada, fui ver a estreia de uma peça, no Sá da Bandeira. Um teatro, outrora bonito, que está (eu diria desesperadamente) a precisar de uma renovação. Depois de anos a passar filmes porno (algo que não me sai da cabeça durante todo o tempo em que estou sentado naqueles lugares da plateia – mas ainda assim acho que estaria pior se tivesse ido para os camarotes), nos últimos anos este emblema da cidade do Porto recuperou a veia teatral, e tem estado consistentemente com peças de teatro, e muitas delas de qualidade. 

Era o caso desta.

Quando me sentei, não estava ninguém do meu lado esquerdo. A minha mãe, que convidei a ir comigo quando me ofereceram os bilhetes (nas estreias, é raro haver lugares pagos, geralmente é para convidados, para que possa funcionar o word-of-mouth), ficou à minha direita. Isto na 2ª fila, no canto direito.

Pouco tempo antes da peça começar (e já muito depois daquilo que era a hora marcada para o início - algo tipicamente português), chega um casal jovem (talvez na 2ª metade dos 20's), em que ele se senta ao meu lado (não podia deixar a namorada sentar-se junto de um tipo jeitoso: macho que é macho previne isso e senta-se no intervalo). E assim que se senta, o rapaz fica de pernas abertas. E assim se manteve. O jovem, que não tinha bigode mas a típica barba de 3 dias que só fica bem aos gays, teria, seguramente, menos 10 ou 15cm que eu, mas ainda assim não conseguia manter uma postura... digamos... discreta. Parecia que teria tomates demasiado grandes para conseguir juntar as pernas, ficando o tempo todo com elas em V. De cada vez que mexia a perna direita, lá tocava na minha, pedindo desculpa em seguida. Felizmente não foram muitas as ocasiões, até porque fiz algum esforço para recolher o meu pernil de forma a evitar o contacto. Em posição relaxada, o tipo não conseguia manter os joelhos no espaço delimitado pelas costas da cadeira da frente, que, como todos sabemos, delimita oficiosamente as fronteiras do espaço pelo qual pagamos. Ou não, neste caso. Se calhar foi isso... como os bilhetes eram oferecidos, ele sentia-se no direito de se sentar como bem entendesse. Quando estou num local públido, geralmente preocupo-me com a envolvente, com quem está à minha volta, se estou a incomodar ou não. Por exemplo: nos concertos sem lugar sentado, é habitual eu procurar não só um lugar em que tenha boa visibilidade para o palco, como um em que tenha pouca gente atrás. Depois de eu ficar instalado, pode chegar quem quiser, porque eu já lá estava, mas não gosto de ir para a frente de alguém, porque sei que vou tapar visibilidade. Este jovem estava, em bom português, a cagar-se para quem estivesse ao lado.

Ah, e o coup de grâce que serve como corolário disto mesmo ocorreu após o intervalo, em que depois de beber uma água com gás, soltou um pouco sonoro arroto. Justificou-se à namorada com a garrafa que ainda tinha na mão.

De facto, a imagem do tuga iletrado e de bigode, ainda é capaz de perdurar mais uns anos.

E, já agora, a peça é boa, tem piada (apesar da 1ª parte ser algo monótona), e uma interpretação excelente do José Pedro Gomes. Chama-se “Os Reis da Comédia”, e além dele conta com o Rui Mendes e o Jorge Mourato. Recomendo.

segunda-feira, março 25, 2013

Habemus Papa Xico

O que é que se tem passado nos últimos dias, digno de registo?

Hmm... vejamos...

Bom, temos um papa novo, um jesuíta argentino que escolheu o nome Francisco.

Além de haver uma ordem religiosa* com o nome de um pastel típico de Sto Tirso (ou será ao contrário?), o nome escolhido não deixa de ser curioso. Isto porque se trata de um nome que origina um diminutivo característico, tanto em português (Xico/Chico), como em castelhano (Paco).

Se por um lado, rapidamente o novo papa começou a ser apelidado de Papa Xico ou, com conotações mais comerciais, de Papa Chicco (embora aqui o slogan da marca sofra bastante com as acusações de que a igreja tem sido alvo - "Chicco: onde há um bebé"), por outro a etimologia do diminutivo em castelhano não deixa de ser curiosa.

Isto porque há duas grandes teorias para a origem deste diminutivo, que aparentemente nada tem de semelhante com o nome original.
Uma faz alusão ao nome que um Francisco de tenra idade tenta reproduzir, quando lhe perguntam o nome. Pelos vistos os miudos espanhóis respondem "Paquico". Seria mais normal, digo eu, que largassem um "Panquico", ou então como os Xicos portugueses que conheço, um remelento "Fanxixo". Mas os espanhóis nunca foram muito bons em tentar idiomas que não o castelhano, pelo que isso deverá  também incluir o "criancês". Adiante. Alegadamente, ao crescer, o tal Paquico transforma-se em Paco, que é imensamente mais másculo e viril. Aqueles que resolvem desafiar toda a lógica etimológica transformam o Paco em Curro, vá-se lá saber porque raios. Coisas de espanhóis.

Uma outra teoria, à qual acho mais piada, ainda que a intensa, longa e exaustiva pesquisa que fiz num site de tretas espanholas diga que é a menos provável, é a de que o nome Paco seria uma abreviação (extrema) de Pater Comunitatis, uma forma em latim que era muito utilizada quando alguém se referia a S. Francisco de Assis, pois era o "pai da comunidade". Oras, este é precisamente o santo com que o novo Papa Xico mais se identifica. E como este, e as suas "Franciscanices" de renegar os luxos habitualmente reservados ao sumo pontífice (sumo? de laranja?), têm gerado uma onde de simpatia (que a igreja devia aproveitar para voltar a ter fiéis, cujo número está em decréscimo há décadas) que vai percorrendo todo o planeta, não era má ideia formalizar esta associação. E os espanhóis agradeciam.

* E, já agora, antes que venham protestar que os jesuítas não são uma ordem religiosa, devo deixar claro que, sinceramente, é coisa em que não me preocupei com a exactidão. Se não são uma ordem, podem ser uma sugestão, ou até uma indicação!
Mas não deixam de ser bons pastéis!

quinta-feira, março 07, 2013

De pernas bem fechadas

Muita gente já terá tido o sonho de estar num local público e de repente perceber que está descalça. É um sonho habitual, principalmente para quem está a estudar.

Segundo os entendidos, isto reflecte o sentimento de insegurança, relativamente aos desafios com que nos deparamos.

Sim, eu também já tive esse sonho, há muitos anos.

Mas o bom deste tipo de sonhos é que acabam quando acordamos, e depois de um sonho desses, seguramente não nos esqueceremos de calçar os sapatos.

Hoje, não tive esse sonho. Ou melhor, nem me lembro se sonhei. Mas tive uma realidade quase tão má.

Acordei, fiz o que tinha a fazer, tomei a bela da banhoca quentinha, arranjei-me, vesti-me e siga para o trabalho, atrasado como de costume.

Foi quando já seguia pela A28, mais próximo da empresa do que de casa, que me apercebi que a zona erógena estava arejada em demasia. Ao olhar para a dita-cuja zona, apercebo-me, praticamente em estado de choque, que a costura mesmo na união das pernas está desfeita.

E agora???

E agora... nada, há que seguir em frente. Não vou voltar para trás, isso seria reconhecer a derrota. Homem que é homem enfrenta o desafio de frente. Já lá vai o tempo de inseguranças.

Chegado à empresa, apresso-me a vestir a bata de trabalho.

Mas como reparar a situação? Como evitar que toda a gente repare na cor dos boxers? Obviamente não tenho um kit de reparação, com agulha e linha de cor a condizer. Talvez as mulheres tenham essas coisas nas suas malas em que tudo cabe, mas eu não. Passou-me pela cabeça agrafar as calças. Ou colar com fita-cola.

Mas achei que a bata seria suficiente para impedir olhares mais marotos. Afinal, não há grandes razões para os colegas repararem em pormenores na minha zona erógena. Esforcei-me para manter as pernas fechadas quando me sentava. Pensei em cruzar as pernas, mas sou daquelas pessoas que preferem o cruzamento aberto, porque acha que o cruzamento "à menina" é coisa de... menina.

Se resultou? Não sei, pelo menos ninguém me disse nada. Mas espero não ter causado pesadelos a ninguém...

terça-feira, janeiro 29, 2013

Automático? Não, obrigado


Ontem fui ao Jumbo, apenas para comprar meia dúzia de coisas, a caminho de casa. É a compra típica de homem: comprar apenas o que é necessário no momento. Se amanhã precisar de outra coisa qualquer, volta-se ao sítio.

Após recolher aquilo que fui buscar, nomeadamente comida de gatos, desodorizante (porque em casa gosto de ter sempre uma embalagem de reserva, é o ERP caseiro), e uma embalagem de limpa-fornos (porque o forno tem uns resíduos difíceis de tirar, desde que uma vez tentei derreter uma embalagem de cammembert com frutos silvestres, e mais de metade do dito resolveu superar os limites da embalagem e inundar o fundo do forno, qual rio furioso em leito de cheia), dirijo-me às caixas.

Olho em pesquisa das que estão disponíveis, que habitualmente são muito poucas, ao final da tarde, e coloco-me na fila para a caixa exclusiva de pagamentos com cartão (sabia que não iria ter dinheiro para tudo).

Vem uma raparigita do Jumbo perguntar, com ar simpático, se não quero ir para as caixas automáticas, que ela ajudaria a realizar o processo.

Disse que não, e ela virou logo costas e foi procurar outra vítima. Mas tive pena.

Tive pena que tivesse virado costas e não me tivesse perguntado “tem certeza?”, ou mesmo “porque não?”, porque aí teria algo para lhe dizer...

É que vejo muita gente nestas caixas, mas repare-se que são caixas em que é o próprio cliente que ensaca os produtos, faz a leitura nos scanners e efectua o pagamento.

Ou seja, nós é que temos o trabalho que há anos é efectuado por outras pessoas, e cujos custos se reflectem no valor que pagamos pelos produtos que compramos. Se nós próprios realizamos esse trabalho, naturalmente devíamos pagar menos.

Além disso, trata-se de uma mecanização/automatização que, se extendida a todas as caixas, significa mais não-sei-quanta gente para a rua. E eu, pessoalmente, gosto de ter uma pessoa a lidar com o processo, gosto de cumprimentar a pessoa, de deixar um sorriso a alguém que provavelmente já está a servir os outros há horas, de ter alguém do outro lado que, de repente, até pode reparar que aquela embalagem está danificada e pede a um colega (em patins/Segway ou, pasme-se, a pé!) para ir buscar uma nova, ter alguém para ajudar a resolver algum problema que possa surgir.
Ainda há uns poucos dias atrás, num Pingo Doce perto de casa, a rapariga da caixa avisou que o garrafão de 6L de água que levava estava com promoção, e podia levar outro sem pagar nada. Isso sim, é bom serviço. Uma máquina não lançava um talão a dizer "vai buscar outro garrafão, que é de graça, oh totó!!!". Quer dizer, acho que não...

 
Gosto do contacto humano. E por isso recuso-me a utilizar caixas automáticas. Quando posso, porque já no posto de gasolina, já não encontro bombas (e principalmente as baratas) em que é só chegar e dizer "é p'ra encher!".

domingo, dezembro 09, 2012

O dilema da lavagem

Eu trabalho como "Engenheiro de Qualidade", e isso implica, entre muitas outras coisas, estar atento e promover a uniformização de processos.

E nesse sentido, há uma coisa que me irrita, e que penso que já devia ter sido alvo de uma intervenção de algum organismo regulamentar, no sentido da standardização.

Tratam-se dos lavatórios de WC's públicos.

Seja em restaurantes, em shoppings, em cafés, institutos, serviços públicos, o que não faltam hoje em dia são WC's onde nos aliviarmos, quando surge aquela vontadinha. Já não há desculpa para fazermos no arbusto mais próximo. E muitos deles até estão lavadinhos e perfeitamente apresentáveis.

Mas, caramba, parece que cada lavatório é diferente!

Sempre que chego a um lavatório, para lavar as manápulas, seja antes ou  depois do servicinho feito, deparo-me com um cenário em que dou graças por ter tirado um curso de Engenharia, para perceber como fazer! Há aqueles de torneira à antiga, os que têm sensores em que basta colocar a mão por baixo para sair água, aqueles que se puxa uma alavanca para a direita, noutros puxa-se a dita para fora, noutros ainda empurra-se o raio da alavanca. E há os que têm temporizador.

Isto para falar apenas da torneira! E tirar o sabão? Também os há em que é preciso empurrar um botão, enquanto noutros temos que puxar uma maneta, e também há os automáticos. O curioso é que é raro ver uma torneira automática e um dispensador de gel também automático.

Mas não é tudo, ainda há que secar as mãozinhas... Por esta altura, depois de lutar contra a torneira e o dispensador de gel, já estou por tudo. Seja um dispensador de toalhas de papel, em que estas ficam presas entre si e, com um pouco de azar, saem 20 toalhas juntas. Ou uma "air blade", em que é necessário ler as instruções, para colocar a mão estendida entre duas saídas de ar comprimido. Ou um aquecedor em que é necessário carregar no botão para sair ar quente (destes, hoje em dia, 8 em cada 10 não funcionam). E há os que têm pequenas toalhinhas todas catitas e gourmet, que nunca sabemos ao certo se foram bem lavadas ou não.

O governo bem se podia encarregar de uniformizar a coisa, em vez de andar a lidar com pormenores como o défice ou a troika...

terça-feira, novembro 06, 2012

Ghost baby???

Eu tenho uma mente aberta. Diria até bem aberta. Gosto de estudar sobre o sobrenatural, gosto de programas que o exploram (ainda que muitos o façam de forma idiota), gosto de filmes sobre o tema, mesmo que depois me causem problemas em adormecer à noite, no quarto escuro, a pensar se os ruídos que ouço são feitos pelos gatos ou... por outra coisa.

Gostava imenso de acreditar que a vida não acaba quando morremos, até mesmo para poder acreditar que aqueles que conheci e que já partiram, apenas mudaram para outra forma de existência. Ainda não tive provas concretas disso. Enfim, tal como tanta gente, também eu já me senti observado quando não havia ninguém por perto, ou aquela sensação de que está alguém connosco, quando na realidade não está lá ninguém. Por outro lado, se senti claramente a presença do meu pai após ter falecido, por outro também me parece que isso teria mais a ver com o hábito de o ter por perto, que foi desvanecendo aos poucos.

Mas há uns dias, vi uma cena que me intrigou bastante.

Ao chegar a casa, estacionei o carro à porta do prédio, e uns metros ao lado estava um Renault Clio estacionado.

Estava vazio, e nos bancos de trás, tinha uma cadeira de bebé. Por cima, pendurado naqueles suportes no tejadilho dos automóveis onde tanta gente pendura o casaco, estava um mobile, um conjunto de brinquedos preso por um cordel. E este, movia-se.

Movia-se para um lado e para o outro. De início pensei o óbvio: "o carro deve ter ficado com uma janela aberta, e o vento faz balançar o brinquedo". Dei uma volta ao carro e não, estava tudo fechado. Pensei noutra situação óbvia: "tem um cão lá dentro". Olhei lá para dentro, preocupado até com o estado de um animal num carro com as janelas fechadas, mas não encontrei nenhum...

Procurei, no meio das minhas ideias, mas não encontrei muitos mais motivos lógicos para o abanar do brinquedo, que se mantinha. A rua não estava com particular movimento, por isso não seria da vibração causada pela passagem de carros. Havia ainda mais uma possível causa: tremores de terra indetectáveis por nós, mas que ocorrem todos os dias.

Fui confirmar à página do Instituto de Metereologia, e para aquele dia (28 de Outubro), não houve nenhum nas redondezas. Apenas um registado em Évora, outro em Sesimbra e ainda outro em Grândola. Ou melhor, não nestas cidades, mas nas estações sismológicas a elas referenciadas (por curiosidade, o mais forte destes foi o registado em Évora, com 1.7 na escala de Richter, é vulgaríssimo haver todos os dias 4 ou 5 mini-tremores, na ordem dos 2º, não nos esqueçamos que o planeta está vivo).

Ou seja... fiquei sem explicações. O dito mobile manteve o movimento durante vários minutos, muito para além do que seria normal se tivesse levado uma pancada e demorasse até parar.

Com isto, decidi-me a filmar um pouco, com o telemóvel. Comprovem vocês mesmos...
 
 
 

sexta-feira, outubro 26, 2012

Lirismos testiculares

Eu podia deixar aqui um texto sobre o dia de hoje. Podia falar das actividades preparatórias para o TEDxMaia, que estou a ajudar a organizar. Foi um dia cheio, sempre a correr.

Mas hoje também foi o dia em que levei o meu gato, o Gugga, ao "corte".

"Ao corte?"

"Ah! Ao corte! Ok..."

Toda a gente prefere dizer "ao corte", talvez por ser comum a noção de que falar com homens sobre algo que afecta os testículos (neste caso a remoção completa) leva sempre a uma dor invisível, um mau estar que, apesar de não ser físico, é capaz de forçar um esgar de dor a qualquer macho latino.

Como será, ficar sem os ditos?

Como será, para um macho na flor da idade e com as hormonas aos pulos, acordarmos um dia, irmos dar uma volta, adormecermos num sítio estranho e quando acordamos, olhamos para a baixo e... eh láááá... falta aqui qualquer coisa!!!?

Não consigo imaginar. O bicho pode muito bem estar a pensar "mas que mal fiz eu para me tirarem as bolas???".

Ainda tentei perceber, nos poucos miados que dá, se seriam mais suaves que o normal. Nos tempos antigos, não era incomum castrar-se rapazes antes que atingissem a puberdade, para que, com o treino adequado, crescessem para ganhar uma voz idêntica à das sopranos, com uma voz bastante mais aguda que os vulgares cantores masculinos. Relatos destes pobres cantores datam do império Bizantino, e floresceram (será este um termo adequado?) pela Europa até a queda de Constantinopla em 1204, altura em que a cultura europeia deu uma volta.

Ou seja, numa perspectiva muito negra, posso ver o meu gato como um potencial felino lírico.

A verdade é que já havia queixas dos vizinhos, da barulheira que o casal fazia, nas suas brincadeiras, e se ele mia mais fino ou não, não sei, mas o que importa é que fique mais calminho, agora que lhe cortaram à fonte de testosterona. E deixe de afinfar na fêmea, que coitadinha, essa já foi "ao corte" há muito, por isso já nem quer saber.

Sei que se eu acordasse, depois de me terem levado para um local estranho e terem-me cortado os tomates, ficava bem furioso, não demoraria muito a haver mortos e feridos.

E isto num animal que, quando chegou a minha casa no final de Julho, passou 2 dias sem que lhe pusesse a vista em cima, escondido, com medo do sítio novo. Demorou 2 meses a ganhar a confiança mínima para que me deixasse tocá-lo.


O Gugga hoje... quando chegou a casa, depois de o ter ido buscar ao veterinário, saltou para o meu colo e encostou a cabeça à minha barriga, para relaxar e tentar adormecer.


Eu sei que ele, provavelmente, nem se apercebeu. Mas do que não tenho dúvida é que os animais valem bem a pena.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Power to the people

Já ouvi várias histórias de carjacking. Tenho amigos que já foram vítimas desse flagelo moderno. Felizmente todos apenas com danos nos carros (que em alguns casos, desapareceram para nunca mais serem vistos).

Na passada 6ª-Feira, fui jantar com amigos ao Cais de Gaia, e após termos ficado na conversa durante algum tempo, dirijo-me para casa. Por ser mais perto e rápido, saio da zona do Cais pela marginal, em direcção à Ponte da Arrábida. 2h30 da madrugada.

Um pouco antes, da ponte, junto a uma zona habitualmente utilizada por roulottes para pernoitar, e também por... casais que não têm dinheiro para motéis (ou até pode ser fetiche, sei lá...), vejo um carro no meio da estrada, e um jovem de pé, ao lado.

O rapaz, novo (20 e poucos) estende os braços, pedindo para que eu pare. Dentro do carro estava uma miúda, da mesma faixa etária. Com um ar cansado, mas não me vou debruçar sobre as causas disso.

Obviamente que me vieram à cabeça todas as histórias já conhecidas.

Carrego no botão de fecho centralizado de portas, e deixo apenas uma frincha na janela, o suficiente para falar. E quando páro ao lado dele, deixo o carro engatado, de forma a sair rapidamente, se for necessário.

O miudo pergunta se tenho cabos de bateria, pois ficaram sem a do seu carro.

É claro que a minha primeira opção foi responder "não", e sair dali antes que saltassem alguns comparsas para me levar o carro. Mas sabia que ao fazer isso, iria ficar a pensar "e se fosse verdade? Negar ajuda a um casalito por medo?". Já seria a 2ª vez nesse dia, pois antes, ao dirigir-me para o emprego, vi o corpo de um gato, basante parecido com a minha MoMA, e como não tinha ferimentos visíveis, pensei em parar para ver se estava vivo. Mesmo que estivesse em sofrimento, podia levá-lo ao vet para morrer em paz. Mas já ia tarde, não quis atrasar-me por causa disso. E fiquei com remorsos no resto do dia.

Peço ao miudo para dar à chave, de modo a comprovar que estava sem bateria. Assim o fez, e de facto o carro não pegava. Isso não invalidaria que saltassem os capangas, mas resolvi arriscar.

Arrumei o carro em frente ao deles, tirei os cabos de bateria que estão sempre na mala do meu, e ajudei-os a arrancar, dando-lhes algumas indicações, já que pelos vistos era a primeira vez que lhes acontecia isto, algo em que já sou veterano (refiro-me ao ficar sem bateria, não a noitadas em carros apertados, em locais obscuros...) E vim à minha vida, são e salvo, e com a sensação de ter feito uma boa acção.


Mas ainda assim, ao chegar a casa ainda pensava "e SE era mesmo carjacking????"...